Por Francisco Toledo

A chacina em Osasco: uma cidade e duas realidades

A chacina em Osasco: uma cidade e duas realidadesPor Francisco Toledo


Foto: Reinaldo Meneguim | Democratize

A chacina em Osasco: uma cidade e duas realidades

Por Francisco Toledo

Assim como quase toda grande cidade no Brasil, Osasco sofre com a gigantesca desigualdade social e principalmente pela indiferença do Estado em relação ao assunto. O mais grave, porém, é que a grave situação ainda carrega o trágico simbolismo: dividida por uma ponte, a região Sul prospera. Do outro lado, na Zona Norte, o esquecimento, violência e pobreza já fazem parte do dia-a-dia da população.

O município de Osasco, na região Oeste da Grande São Paulo, é considerado um dos mais ricos do Brasil. Segundo dados do IBGE de 2010, a cidade se encontra no 12º lugar no cenário nacional e em 4º lugar no cenário estadual em relação ao PIB (Produto Interno Bruto). A cidade carrega nas costas a Fundação Bradesco, que praticamente se faz mais presente do que o próprio Estado: possuem uma própria “cidade” dentro de Osasco, além de financiar boa parte das construções privadas. Trata-se da vigésima sexta maior cidade do país, com quase 700 mil habitantes.

Apesar dos dados que possam demonstrar uma cidade desenvolvida e próspera, a situação real já não parece ser bem assim. E o evento que tornou isso cada vez mais visível foi a chacina cometida no bairro periférico do Munhoz Junior, na região Norte do município. Dos 19 assassinados em toda a chacina, 10 morreram no bairro — quatro no momento do ataque, e seis posteriormente no hospital.

O envolvimento de policiais no crime é visto como óbvio pela população, que apesar disso, prefere não declarar abertamente sobre o assunto. O motivo: medo. Trata-se do mesmo medo que as pessoas do bairro carregam por décadas, por conta da violência na região Norte de Osasco, entre polícia e traficantes.

Família e moradores durante a missa de sétimo dia pelos mortos da chacina no bairro do Munhoz Junior, em Osasco | Foto: Reinaldo Meneguim | Democratize

Em um dos bairros mais próximos do Munhoz Junior, a taxa de violência também se mostra presente. Segundo dados da Secretaria de Gestão Estratégica do Estado em 2005, só no bairro foram registradas 139 ocorrências no ano de 2004. Foram 2 casos de homicídio doloso, 5 tentativas de homicídio doloso, e quase 50 de furtos. Segundo dados de 2006, a população do Helena Maria registrava 26 mil habitantes, um dos maiores da cidade.

E assim como toda grande região urbana, Osasco sofre com a incrível e visível desigualdade social.

O mais curioso disso, é a forma como podemos analisar o fato. As regiões Noroeste e Norte (as mais pobres da cidade) são separadas do restante da cidade através de pontes, que atravessam Osasco, além do trilho dos trens da CPTM e da Rodovia Castelo Branco.

Por exemplo, em um bairro do outro lado da ponte do Helena Maria e Munhoz Junior, como a Vila Yara, a taxa de violência é bem diferente, apesar de ser uma das regiões mais movimentadas da cidade. Foram registrados apenas um caso de homicídio doloso em 2004, além de ser um dos bairros com uma renda média das mais avançadas do município, com R$3.101,66. Pelo IDH, é o quarto melhor bairro de Osasco, com 0,901. Não por acaso, abriga uma presença massiva tanto do Estado (prefeitura) quanto da iniciativa privada: apenas na Avenida dos Autonomistas, quando andamos pelo bairro, podemos encontrar uma variedade de 3 grandes shoppings em menos de 3km. Isso além de três grandes redes de supermercado, três grandes faculdades, um terminal de ônibus (que liga a cidade com a capital São Paulo), novos e belos condomínios sendo construídos pela iniciativa privada, além da presença da prefeitura com escolas municipais (as melhores da cidade estão na mesma região), centros de atendimento ao trabalhador, e até mesmo iniciativas para crianças como boxe, dança, entre outros. Os “vizinhos” da Vila Yara contam com a mesma estrutura, talvez até melhor, como o próprio Centro da cidade, e os bairros da Vila Campesina (com casas luxuosas e considerado o “centro gastronômico e boêmio da cidade”), a Cidade de Deus (propriedade absoluta do Banco do Bradesco), e a Bela Vista. Juntos, esses bairros não chegam nem ao número de 100 mil habitantes, em contraste com o registrado nas zonas Noroeste e Norte de Osasco, que chegam ao triplo.

A famosa Ponte Metálica, que liga o bairro da Vila Yara com o Centro de Osasco — símbolo do desenvolvimento da cidade | Foto: Cléber Cunha

Tudo isso acaba se tornando um sinal de que a falta de planejamento da urbanização das grandes cidades do Brasil é um dos mais graves problemas que acabam influenciando nos níveis absurdos de desigualdade social em que vivemos. Por exemplo: com apenas um grande hospital público na cidade, os moradores das regiões Noroeste e Norte de Osasco precisam atravessar a cidade para conseguir ter acesso ao hospital, que fica na região central de Osasco. Combinado a isso, ainda fica o grave problema de transporte público, que faz com que a distância entre ambos se torne apenas um “probleminha”, já que a quantidade de ônibus que ligam as regiões esquecidas pelo município ao Centro são pífios, se formos considerar a quantidade de pessoas que moram na região e trabalham em outros locais.

Em um município que já carrega tantos problemas, a presença do Estado deveria prevalecer para tentar, ao menos, diminuir essas diferenças. Mas trata-se de uma das cidades que carrega o maior nível de corrupção em São Paulo, chegando a ter um vereador específico (que já foi candidato para prefeito nas últimas eleições) envolvido com tráfico de drogas e milícias que atuariam principalmente na região do Norte da cidade. Isso sem levar em conta a situação política das gestões na prefeitura, com o famoso troca-troca de partidos para estar na situação e se aproveitar da estrutura pública para enriquecimento pessoal.

Manifestação no dia 16 de agosto contra a chacina no Munhoz Junior, um dos bairros mais pobres de Osasco | Foto: Cae Oliveira | Democratize

Trata-se de um aviso aos gestores, políticos, e principalmente para a população: focar nos grandes centros e esquecer das cidades e bairros periféricos é um dos maiores erros que o Estado pode cometer. A situação hoje é grave, mas pode se tornar ainda pior. Enquanto manifestantes na Avenida Paulista criticavam o governo federal petista por “incitar a violência entre as classes”, o que realmente acaba incitando isso é a divisão real entre os bairros ricos e os bairros pobres. Mas vale lembrar: a periferia, em números, é muito maior dos que as regiões nobres das grandes cidades. E uma hora, um dia, quem sabe, a revolta possa ser tão grande que a chamada violência de classes deva ser impossível de frear. Esperar até quando?

By Democratize on August 22, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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