Por Francisco Toledo

7 de setembro de 2013: a cicatriz que não curou

7 de setembro de 2013: a cicatriz que não curouPor Francisco Toledo


Foto: Wesley Passos/Democratize

7 de setembro de 2013: a cicatriz que não curou

Por Francisco Toledo

Domingo, 7 de setembro de 2013. Foi nessa data que muitas cicatrizes surgiram, e até hoje não foram apagadas. A repressão policial em São Paulo e Rio de Janeiro marcavam o início de uma verdadeira caça política contra manifestantes, que acabaria resultando posteriormente na mais elaborada máquina de repressão que vingou durante o ano de 2014 inteiro, minando qualquer possibilidade de reação contra a Copa do Mundo. Ao mesmo tempo, os movimentos de direita começaram a ocupar as ruas, articulando o que hoje seria seu domínio nas manifestações públicas. Cicatrizes que ainda machucam.

Estávamos atrasados para a manifestação. Depois do Grito dos Excluídos, que ocorreu na parte da manhã, ainda havia marcada uma grande manifestação no vão livre do Masp, em São Paulo, às 15 horas. De longe, já podíamos ver a diferença entre dois grupos específicos que ocupavam as faixas da Avenida Paulista: de um lado, manifestantes com uma média de idade acima dos 30 e 40 anos. Homens brancos, com camiseta da seleção brasileira, criticando a inércia do governo federal com a corrupção — que na época, não era tão clara quanto é hoje. Algumas selfies com policiais militares, alguns gritos de intervenção militar. Do outro lado — maioria — jovens entre 15 e 25 anos. Era o auge do Black Bloc na mídia: buscavam líderes, tentavam entender sua ideologia, quem financiava, etc. Tempos complicados: ambos os lados protestavam, de sua forma, contra a mesma coisa. Não havia uma pauta específica, como em junho de 2013.

Na época, dois anos atrás, Black Bloc já era visto como sinônimo de baderna, vandalismo, os tais infiltrados. Tanto pró-governo quanto oposição de direita os criticavam. Um lado afirmava que não passavam de infiltrados financiados pelo PT e PSOL para gerar baderna, incitar a polícia para a violência e caos. O outro lado conseguia ser ainda mais criativo: eram agentes financiados pela CIA, operadores de uma possível revolução laranja, que tem como objetivo deteriorar a estabilidade política de países com governos de esquerda e independentes ao redor do mundo. Dois anos depois, mesmo com tanta coisa diferente, ainda existirão pessoas de ambos os lados achando a mesma coisa. É a estagnação da politização, a vitória do Nós contra Eles.

Foto: Wesley Passos/Democratize

Voltando ao ato: a manifestação seguiu. Saiu do seu local de concentração no Masp. Estávamos lá trás, no começo da Paulista com a Consolação, e começamos a correr para alcançar os manifestantes.

Não conseguimos. Perguntamos para um policial militar sobre onde havia seguido o ato. A resposta foi clássica: os manifestantes de bem foram para esse lado, os que querem baderna seguiram para a Câmara Municipal. Adivinha para qual lado fomos?

E continuamos correndo, até alcançar a massa de cerca de 5 mil pessoas que caminhava até a Câmara Municipal. Não havia liderança — bem na realidade, não me lembro de uma bandeira de partido político sequer, até mesmo daqueles que sempre estiveram em manifestações de esquerda, como PSOL e PSTU. O clima pós-junho era estranho. Sinais já apareciam de que dias piores conseguiriam vir. Olha que curioso: os dois setores que mais fortaleceram e bancaram a Jornada de Junho — anarquistas e partidários de esquerda — deram as costas uns para os outros depois da redução da tarifa em São Paulo. As acusações eram as mesmas: querer roubar protagonismos, pelegos, despolitizados, interesseiros, etc. No final, acabaram por dividir o mesmo espaço nos atos contra a Copa, mas já era tarde. O Estado já havia se fortalecido, sua máquina de repressão já era mais avançada, e a perseguição política chegou ao seu auge.

De qualquer forma, a manifestação seguiu.

Na Câmara Municipal, um cordão de policiais militares protegendo o prédio — que estava vazio, aliás, pois era feriado. Não se sabe ao certo qual era o objetivo da marcha, mas logo pedras começaram a voar em direção ao cordão. A resposta foi tão imatura quanto a ação dos manifestantes — porrada generalizada. Era uma continuação de junho, mas só na ação. Não havia roteiro. Não haviam ideias, era a violência generalizada.

Policial saca a arma contra manifestantes — Foto: Wesley Passos/Democratize

O saldo foi brutal.

Nosso colega de ativismo, o garoto Vitor, perdeu a visão de um olho. Muitos presos, muitos feridos. Um homem atropelado covardemente por um carro da Polícia Militar na Rua Augusta. Um policial, sozinho no meio de manifestantes, atirando com arma de munição letal para espantar os que estavam ao seu redor. Era a violência implícita, e nada mais que isso.

O que veio depois do 7 de setembro de 2013? Vamos pensar.

Um vão enorme aberto. A única pauta em comum entre os movimentos era a Copa do Mundo. Mas a mídia já blindava o Estado, que se armava, e era tarde demais. Depois disso quem ocupou as ruas foi a direita — aquela mesma direita que, segundo o policial militar na Paulista, era formada por pessoas de bem, que não seguiram o mesmo caminho dos baderneiros, dos que estavam afim de encrenca.

Essa direita conseguiu trazer para si o público jovem de classe média que encorpou as Jornadas de Junho fase 2 (do dia 15 pra frente). Não estavam lá por serem propriamente ditos de esquerda, e não estão hoje por serem propriamente dito de direita. São pessoas que estão apenas irritadas, indignadas. E precisam culpar alguém por isso. A divisão dos setores de esquerda de oposição abriu espaço para os conservadores agirem. E não foi tão difícil assim.

São cicatrizes que não serão tão fáceis de apagar. As marcas estão ai. A pergunta que não quer calar é: por que não nos arriscarmos de novo?

By Democratize on September 7, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

Posts Relacionados

On Top
error: Para reproduzir o conteúdo do Democratize, entre em contato pelo formulário.
%d blogueiros gostam disto: