Pela liberdade de te ofender e pela censura contra os outros

Antes de começar a ler esse texto, abra uma nova aba no seu navegador, entre no Google e pesquise por “polêmica Danilo Gentili”. Não vai demorar muito para aparecer mais de 167 mil resultados, notícias e artigos relatando casos onde o suposto humorista ofendeu de variadas formas “politicamente incorretas” minorias e qualquer um que lhe fizesse oposição de alguma forma.

É um cardápio grande de “polêmicas”: perguntar para um negro no Twitter quantas bananas ele queria “pra deixar essa história pra lá”. Outro caso foi em 2012, quando resolveu fazer piada com a quantidade de homossexuais mortos em um relatório do Grupo Gay da Bahia. Naquele ano, cerca de 336 haviam sido assassinados no país, o que significava uma morte a cada 26 horas. No Twitter, ele escreveu: “1 gay é morto a cada 26 horas? 140 heteros (sic) são mortos a cada 24 horas. Alguém aí come meu cu hoje? Só por segurança”.

O mais irônico disso é que Gentili representa um grupo político que em sua enorme maioria prega por questões “morais”, que possam dar “bons exemplos” para as crianças brasileiras. Foi com essa lógica que eles passaram por cima do apelidado “kit gay”, e que agora conseguiram censurar uma exposição de arte em Porto Alegre, promovida pelo Santander Cultural.

Não por acaso, Gentili é amigo próximo dos meninos do Movimento Brasil Livre, o MBL. Grupo que “surgiu” em 2014 após os resultados das eleições presidenciais e que ficaram conhecidos pelas grandes manifestações – em sua maior parte promovida por um grupo mais moderado chamado Vem pra Rua – contra a ex-presidente Dilma Rousseff. Como o MBL envolve “nomes jovens” e carrega esse gosto pelo “politicamente incorreto” em todas as suas ações, é claro que acabou ganhando mais mídia – o que não significa o retorno de seguidores. Vale lembrar que o MBL, na prática, representou menos ações políticas e representatividade nas redes sociais e nas ruas que o VpR e outro grupo ainda mais conservador, chamado Revoltados Online.

Assim como Gentili, o MBL acredita que a “onda politicamente correta” é uma forma de censura. Para demonstrar seu ponto de vista, por exemplo, respondem jornalistas que escrevem reportagens sobre polêmicas do grupo com fotos de pênis, ou de bunda. Uma atitude, claro, politicamente incorreta, assim como a do seu amigo humorista do SBT que resolveu passar uma notificação judicial da deputada Maria do Rosário (PT) na sua genital. Óbvio que, em tempos de redes sociais, ele precisava expor aquilo para ganhar a atenção de seus nobres seguidores. Ou seja, gravou ainda um vídeo e publicou no Facebook. Seu público, formado em sua maioria por adolescentes, adoraram. Jovens que em tese precisam aprender, segundo os próprios conservadores, a ter uma “moral intocável” contra exemplos ruins. Tanto o caso de Gentili quanto o do MBL não valem. Afinal, são representantes diretos desse grupo político.

Nos Estados Unidos, muito se questiona sobre a tal “liberdade de expressão”. Direitistas do Alt-Right acreditam que permitir manifestações ultra-nacionalistas e xenófobas, com bandeiras da Alemanha Nazista, é uma questão que envolve puramente a liberdade de opinar no país. Claro, a grande maioria dos americanos não quer ver a suástica passando pelo seu bairro. Um grupo denominado “antifascista”, que costuma agir em manifestações, não deixou barato e revidou a manifestação de extrema-direita. Lá, chamaram a ação de oposição de “censura”.

Porém, vale aplicar aqui a “defesa” do MBL no caso do Santander Cultural: o grupo afirma ter aplicado apenas o boicote contra a exposição, além de claro, postagens e ameaças de cancelamento contra o banco. Neste caso, os antifascistas poderiam dizer o mesmo.

Eles não proibiram a manifestação da extrema-direita em momento algum. Estavam apenas praticando o seu livre direito de manifestação também. Veio a calhar de ser no mesmo espaço e ter resultado em confrontos. Mas oras, é constitucional. Os dois lados brigaram, não? Aliás, uma jovem antifascista morreu nas mãos de um neonazista assumido. Portanto, quem aqui deve reclamar de censura? Foi “só boicote”, os antifas diriam.

Mas claro, para o MBL a ação antifa nos Estados Unidos foi censura. Um suposto ataque contra a liberdade de expressão. Curioso ataque, onde quem morreu nas mãos de um opositor foi uma jovem de esquerda.

A liberdade que o MBL de Kataguiri e seu grupo político quer é de censurar seu opositor. Mais nada do que isso. Por isso pagam para um youtuber ir em manifestações de esquerda para provocar e causar confusões. Não se contentam em ter seu espaço – hoje no Planalto, ao lado de Temer, além de várias prefeituras ao redor do Brasil, ocupando – curiosamente – cargos públicos e sendo pagos por nós. Eles precisam censurar o espaço alheio, ou diminuir, provocar, insultar, causar conflitos. Essa tática é bem antiga, vocês sabem, certo? Na década de 30 bem que tentaram aplicar aqui no Brasil, aproveitando da onda nacionalista que corria ao redor do mundo contra a “ameaça comunista”.

Olha só, novamente a mesma história. Porém, ao que tudo indica, não devem conseguir – de novo.

Eles podem tentar censurar a arte, as opiniões contrárias, seus opositores, jornalistas – com o rótulo “fake news” – e qualquer cidadão que caminhe no lado contrário, rotulando de esquerdista pessoas que vão de Marina Silva até políticos que lutaram contra a ditadura militar mas passaram para o lado mais “direita” da política. Mas jamais conseguirão fugir da história.

E o que a história nos ensinou, tanto pela esquerda quanto pela direita?

Que o individuo necessita de liberdade. E uma liberdade real. Não a que o Movimento Brasil “Livre” quer. Liberdade na arte, cultura, política, economia, na religião e na sua opção sexual. No seu direito de fumar tabaco ou maconha – ou beber uma cerveja, por que não? De querer ser a única pessoa que tenha o direito de lidar com seu próprio corpo, seja com o aborto ou com o direito de morrer em paz.

Para os ainda inocentes seguidores do MBL, sugiro uma visita a qualquer museu ao redor do país para analisar bem as obras antigas lá expostas. Obras que nunca ganharam tanto alarde hoje – mas que no passado, sofreram pela mesma censura de seus acusadores. E quando digo passado, falo em séculos. Pois é, sim. Chegamos nesse nível mais uma vez. Mas novamente, se a história nos ensinou alguma coisa, é que passaremos por esse momento de novo, e Kataguiri’s e pessoas que caminham contra o progresso da humanidade, ficarão para trás, marcados como merecem.

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