Coletivo Viadas, durante homenagem a Andréa de Mayo, no Cemitério Consolação. Foto: Bruno Fernandes

16 anos após seu falecimento, transexual recebe placa com nome social em seu túmulo

Transfobia, maior incidência de Aids, riscos de morte por silicone industrial, poucas oportunidades e caminhos que se funilam e levam à prostituição. Por que a vida de Andréa de Mayo ainda é tão atual e precisa ser lembrada?

No cemitério público mais antigo da cidade de São Paulo, um coletivo de drag queens fez ecoar o Canto de Ossanha, de Toquinho e Vinícius de Moraes, na tarde desta quinta-feira (17), em frente ao Terreno 22, Rua 25, do Cemitério Consolação. A performance abria as homenagens a Andréa de Mayo, transexual que, na tarde de ontem, recebeu uma placa com seu nome social, 16 anos após seu falecimento.

Com uma trajetória de vida polêmica, Andréa foi um dos principais nomes da noite gay paulistana e, ao mesmo tempo, referência nas discussões sobre os direitos das Travestis e Transexuais nas décadas de 70 e 80. Desde sua morte, em 16 de maio de 2000, seu túmulo permanecia no anonimato, com uma placa apenas com o nome de registro, Ernani dos Santos Moreira Filho.

Em vida, Andréa de Mayo lutou, por exemplo, pela criação de um estatuto que garantisse os direitos cívicos a todos os integrantes da comunidade LGBTTT paulistana. Mas, na época de seu falecimento, seu pai se negou a sepultá-la; o espaço no jazigo do Cemitério Consolação foi cedido pelo pai de santo Walter, amigo pessoal de Andréa. Na época, o direito ao uso do nome social por travestis e transexuais não era permitido (tal decreto foi assinado apenas em abril deste ano, pela presidente Dilma Rousseff). Por isto, só hoje, 16 anos após sua morte, Andréa de Mayo finalmente recebeu uma placa com o nome que escolheu para ser lembrada.

A placa colocada na tarde de ontem, com o nome social da tran
A placa colocada na tarde de ontem, com o nome social

A iniciativa é do Serviço Funerário do Município de São Paulo, gestão Haddad, com apoio da Coordenação de Políticas para LGBT, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania. A ideia surgiu em julho deste ano, durante o VIII Congresso Internacional Imagens da Morte, quando a notícia de que o túmulo de Andréa de Mayo se encontrava naquele cemitério foi levantada durante uma das discussões do evento por Renato Cymbalista, docente da USP e organizador do congresso. A partir daí, iniciaram-se as mobilizações para que a trans recebesse a homenagem. O próprio Cymbalista foi o doador da placa com o nome social, que tem 30cm x 26cm. “Este é o primeiro marco de reparação à memória LGBT que tenho conhecimento no Brasil”, comentou durante a cerimônia.

Famosa no cenário underground paulistano, Andréa de Mayo participou de programas de TV com certa frequência. Um dos embates mais emblemáticos foi no Programa Livre (SBT), de Serginho Groisman, com Afanásio Jazadji, na época, deputado estadual. O político chegou a declarar que os homossexuais deveriam ser afastados do convívio social. “Quando o senhor foi às ruas para pedir, angariar os seus  votos para o indivíduo que é homossexual, o senhor falou não vote em mim?”, perguntou Andréa da plateia, aplaudida. [Assista o vídeo.] O programa repercutiu nacionalmente, com nota na Folha de S. Paulo, em 19 de julho de 1985.

Como dona da noite, em sociedade com Valdemir Tenório de Albuquerque, o Val, Andréa de Mayo administrou a lendária casa de shows de travestis Val-Improviso, na Rua Frederico Steidel. O Val-Improviso e o Val-Show, na Marquês de Itu, marcaram história na noite de São Paulo; Cazuza foi um dos frequentadores e a boate chegou a entrar até mesmo em uma das composições do músico. Também com a Prohibidu’s, na Amaral Gurgel, a boate de Andréa foi uma das baladas mais disputadas da cidade, em um período em que muitos clubes noturnos não deixavam entrar travestis.

Você nunca varou A Duvivier às 5 / Nem levou um susto saindo do Val Improviso / Era quase meio-dia / No lado escuro da vida

Andréa de Mayo ficou conhecida como uma das principais cafetinas de travestis de São Paulo da década de 80; cobrava das meninas, era temida por traficantes e michês, mas também respeitada pela polícia. Chegou a ter dois apartamentos lotados de beliches onde moravam travestis que lhe pagavam diárias, em uma época em que não se alugava um apartamento para travestis prostitutas. [Recomendamos leitura da reportagem Poderosa Chefona, veiculada em 07 de julho de 2010, pela Revista Trip.] Era, também, famosa por um instinto um tanto maternal, em que protegia e defendia travestis das intempéries da vida noturna.

Durante o boom da Aids, nos anos 80 e 90, Andréa de Mayo ajudou a prolongar a vida de inúmeras travestis, como relembra Áurea Abade, presente na homenagem da tarde de ontem. “Eu já trabalhava no GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção da Aids), fazendo a assessoria jurídica. Aos sábados, sempre recebíamos alguém que chegava com comida ou medicação enviada por Andréa – ou às vezes ela própria nos trazia, para distribuir para pessoas atendidas pela instituição. Andréa alimentou e ajudou muitas pessoas a se manterem vivas”, relembra.

Passaram-se anos, mas a alta incidência do vírus da Aids entre gays e travestis jovens segue alta. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde em 2014 mostram que 734 mil pessoas vivem com HIV no Brasil, destes, 145 mil ainda não sabem que têm o vírus. Isto significa que, no total, 0,4% da população brasileira tem HIV/Aids, mas quando observado o panorama em públicos específicos, o número é maior. Entre gays e homens que fazem sexo com homens maiores de 18 anos, 10,5% das pessoas têm o vírus. Por isto, não é exagero afirmar que o olhar diferenciado de Andréa de Mayo, ao mesmo tempo em que optava por escrachar publicamente as hipocrisias da sociedade cisgênero, colaborou na disputa e formulação de políticas públicas de um Estado que se omitiu, violou e segue violando os direitos transgêneros.

Para se ter uma ideia de vanguarda de Andréa de Mayo, segundo a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), 90% das travestis e transexuais estão se prostituindo no Brasil atualmente [dados de 2015]. Para a associação, ainda que queiram arranjar um emprego com rotina, horário de trabalho e carteira assinada, elas são eliminadas dos processos seletivos e das entrevistas por conta da transfobia. Agora, transponha os dados dos tempos atuais ao cenário da década de 80, ainda mais opressor e transfóbico.  E confira uma das falas de Andréa, em entrevista para Goulart de Andrade, em um documentário especial para o Comando da Madrugada, em 85. “O palhaço pinta o rosto para viver, e o travesti também. Por que o travesti não trabalha? Quem que dá trabalho para o travesti? Me conta isso. Não tem! Se não tem trabalho nem para pai de família, vão dar trabalho para o travesti?”

Andréa de Mayo morreu pouco depois de completar 50 anos, em uma clínica de cirurgia plástica, um dia após se submeter à retirada de silicone industrial das nádegas e de suas coxas. Entre os anos 80 e 90, quanto mais litros de silicone uma travesti colocasse para modelar seu corpo, mais poderosa ela era e mais respeito conquistava em seu meio. Mas os procedimentos ofereciam – e oferecem – graves riscos de vida, por serem feitos sem higiene ou o mínimo de preparo.

Aliás, este também é outro problema que segue atual. Desde 2008, o SUS realiza o processo de transformação, que engloba as cirurgias de redesignação sexual, mastectomia (retirada de mama), plástica mamária reconstrutiva (incluindo próteses de silicone) e tireoplastia (troca da voz). No entanto, milhares de pacientes cadastrados no Sistema Único de Saúde precisam aguardar por anos sua chamada para fazer uma cirurgia. [Recomendamos: Uma questão de saúde pública: o drama das travestis e transexuais do Brasil. Recomendamos, ainda, uma breve busca no Google, pelos termos silicone industrial + morte + travestis.]

Os vizinhos de Andréa no Cemitério Consolação

No dia do sepultamento de Andréa de Mayo, Pedro de Lara foi a única figura pública que compareceu a seu enterro, no qual discursou. Eles se conheceram na bancada do show de calouros, nos “Concursos de transformistas”, que Sílvio Santos comandava aos sábados à tarde. O enterro foi simples, assim como o túmulo onde está sepultada. No entanto, outras personalidades históricas dividem vizinhança na morada eterna com a trans, no Cemitério Consolação.

Lá, entre os mais de 1500 túmulos da necrópole municipal mais antiga da cidade,  estão sepultados Mário de Andrade, Oswald Andrade, Tarsila do Amaral, Monteiro Lobato, Marquesa de Santos (Domitila de Canto Castro e Melo), Guiomar Novaes, Paulo Vanzolini, Luz Gama, Paulo Goulart, Anália Franco, Dona Yayá, Franco da Rocha, entre outras centenas de personalidades públicas. E internacionalmente considerado um museu a céu aberto, o cemitério também possui, em alguns dos jazigos de celebridades ou não, obras de arte de Victor Brecheret, Galileo Emendabili, Ramos de Azevedo (também sepultado lá), entre outros escultores renomados. Mas, dos vizinhos mais inusitados de Andréa, existe um ultraconservador que não lhe agradaria nenhum pouco dividir condomínio com a transexual.

É que no mesmo Consolação está o túmulo de Plínio Corrêa de Oliveira, catolicista e tradicionalista que fundou na década de 60 a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família, e Propriedade. Plínio faleceu em 3 de outubro de 1995, mas, até hoje, é bem comum que seguidores, ou sócios dissidentes da TFP visitem, diariamente, sua sepultura. São homens e mulheres elegantes, a maioria já com idade avançada, que param seus carros de luxo em frente ao jazigo de um dos principais representantes da extrema direita católica do país, para, com terço em mãos, tecer suas orações por algumas horas, como em uma vigília quiçá para reverter o enfraquecimento da própria associação e suas ideias consideradas (apenas) por eles, sagradas.

O grupo é contrário, por exemplo, à realização de atividades culturais dentro do cemitério, por considerá-lo um ‘solo santo’. Mas agora, os seguidores da ultraconservadora TFP terão que conviver com a descoberta da vizinha nada convencional. A placa colocada na tarde de ontem faz com que Andréa de Mayo viva, mais do que nunca, presente como memória e resistência pelo direito de ser homossexual.

Andréa de Mayo, com seu amigo inseparável, o cão Al Capone. Foto: Claudia Guimarães
Andréa de Mayo, com seu amigo inseparável, o cão Al Capone. Foto: Claudia Guimarães

Para Marcelo Soler, doutor e mestre em artes cênicas pela ECA/USP, e professor do Departamento de Artes Cênicas ECA/USP, da Faculdade Cásper Líbero e da FPA, reavivar a memória, principalmente dos grupos e minorias que foram ainda mais jogados para a ‘desmemória’, é um  ato não apenas político, mas de relevância para a construção do imaginário de uma parcela da população que precisa se sentir representada. “Se estamos em um momento histórico de retrocesso, em que as bandeiras de mulheres, homossexuais e travestis estão sendo, aí sim, enterradas, levar para o cemitério uma homenagem que traz a memória de uma personagem que foi esquecida tem uma importância pólis, pois é uma possibilidade de levantar discussões sobre sexualidade e identidade de gênero toda vez que alguém redescobre sua história.”

Neste contexto, ainda para Soler, que assinou a performance artística durante a homenagem a Andréa de Mayo na tarde de ontem, devolver ao espaço do cemitério o seu caráter público de lugar de memória é fundamental. “A desconstrução do cemitério como um espaço da não lembrança, espaço da morte, cercado por muros e apartado da cidade, acaba fazendo com que a gente se esqueça da nossa finitude. É por isto que, cada vez mais, crianças e adolescentes estão deixando de frequentar os cemitérios e isto é preocupante, porque mostra a relação que as novas gerações têm com a memória”, comenta.

Iniciativas de marcos de memória e reparação têm sido recorrentes na atual gestão do Serviço Funerário Municipal de São Paulo. Foi o caso, por exemplo, da criação do Jardim “Pra não dizer que não falei das flores”, desenvolvido no Cemitério Vila Formosa no ano passado, em homenagem a Virgílio Gomes da Silva e Sérgio Roberto Corrêa, ambos assassinados por agentes do DOI-CODI/SP, durante a ditadura militar. Isto porque, a superintendente do Serviço Funerário, Lucia Salles, acredita que os cemitérios fazem parte de um serviço público, que além de dar amparo no momento do luto, também devem celebrar a vida e recuperar a memória coletiva dos que já se foram. “São Paulo é de todas as tribos, não é possível que nossas esperanças de um povo mais plural e diverso não resistam a toda essa avançada conservadora que temos visto. E Andréa é isto, ela um dos símbolos de resistência e por isto deve estar presente”, afirma.

Ossanha de Mayo

O ato performativo “Ossanha de Mayo”, que abriu a homenagem na tarde de ontem, foi concebido e dirigido por Marcelo Soler, da Cia Teatro Documentário, com as drag queens do coletivo Viadas e direção musical de Gabriel Bueno e Danilo Sene.

Para realizar a performance, o grupo fez um amplo estudo sobre a história de Andréa de Mayo. A escolha da música se deu porque Andréa frequentava um terreiro de Candomblé e considerava Ossanha seu orixá. Alessandro Fritzen, ator, professor de teatro e produtor do Coletivo Viadas comenta as conexões da apresentação com a vida de Andréa e o trabalho de seu coletivo. “Em O Canto de Ossanha, vemos que o “homem que diz que é mas não é” traz a reflexão sobre uma sexualidade não existe, e queríamos levantar esta questão”, diz.

André Lino, também do Coletivo Viadas, se emociona ao falar que a performance foi uma das apresentações mais significativas que já fez. “As mães das drag queens são as travestis. Para fazermos o trabalho que estamos fazendo hoje, precisamos, lá atrás, que Andréa de Mayo vivesse esta história, assim como muitas outras ‘Andréas’ que existiram, para que, hoje, pudéssemos andar com nossos namorados de mãos dadas ou fôssemos representadas na política, por exemplo. E lá na frente, outras pessoas precisarão da história que estamos construindo aqui, hoje, por isto estes marcos de memória são tão importantes”, conclui.

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